No coração do sudoeste de Shandong, a cidade de Juancheng transforma fios e cores em um verdadeiro legado vivo. O tradicional tecido de Lu, reconhecido como patrimônio cultural imaterial da China, não só guarda memórias da agricultura na bacia do Rio Amarelo, como também vem ganhando nova vida no século XXI com design moderno, inovação tecnológica e forte presença feminina.
Fios que contam histórias há mais de mil anos
A história do tecido de Lu remonta às dinastias Yuan e Ming, quando a produção de algodão se espalhou pelo norte da China. Em Juancheng, artesãos combinaram técnicas antigas de tecelagem com fibras como cânhamo e seda, criando uma estética única para a região. Na década de 1960, os tecidos se tornaram itens indispensáveis em enxovais de casamento, e suas estampas evoluíram para cerca de 2 mil padrões diferentes — como flor de jujuba, pegadas de gato e desenhos geométricos.
A mestre-artesã Liu Aiyu explica que a produção segue 72 etapas, da colheita do algodão à tecelagem final. As técnicas tradicionais, como “taohua” (intercalação de fios) e “kanhua” (realce de flores), criam tecidos com textura em alto-relevo. As cores vibrantes — vermelho, azul-índigo, verde-lago — refletem a personalidade calorosa do povo de Lu.
Museu transforma tradição em experiência viva
Fundado em 1995, o Museu do Tecido de Lu, em Juancheng, é uma verdadeira cápsula do tempo. Lá, antigas máquinas de tecer do período Qing dividem espaço com tecnologia de projeção digital. Um dos destaques é o padrão “fênix dourada sobre lírio”, que representa a proteção e a boa sorte desejadas pelos antepassados.
Com ateliês abertos ao público, o museu mostra todas as etapas do processo — e resgata a tradição com impacto social. Por meio de um modelo que integra mestres artesãos, cooperativas e famílias do campo, mais de 5 mil mulheres voltaram a tecer, mantendo viva a tradição e gerando renda.

Tradição que vira tendência
O tecido de Lu brilhou internacionalmente em 2018, ao ser usado como convite oficial da cúpula da Organização de Cooperação de Xangai. Em 2024, um modelo inspirado nas antigas estampas venceu o Prêmio Bronze na principal competição de design da província.
Inovações recentes misturam nanotecnologia à tecelagem, criando tecidos resistentes à água sem perder a textura do algodão. Estúdios criativos têm transformado padrões clássicos em bolsas modernas vendidas até em Paris. Nas redes sociais, jovens influenciadores explicam o significado romântico dos desenhos com linguagem contemporânea. O resultado: mais de 100 linhas de produtos, de roupas a artigos para casa, com vendas anuais ultrapassando 80 milhões de yuans e exportações para mais de 20 países.
Cultura e renda para o campo
No povoado de Yangtun, a artesã Wang Xiuyun, de 46 anos, orgulha-se de seu ofício: “Com esse trabalho, ganho 3 mil yuans por mês e ainda cuido da família”. Juancheng integrou o tecido de Lu às rotas de turismo rural e criou centros de treinamento onde jovens como Li Yuan aprendem a aliar tradição e cultura pop, desenvolvendo estampas com visual de videogame.
Como diz o curador Lu Weimin, “preservar a herança cultural não é repetir o passado, mas dar nova vida a ele no presente”.
De Pequim a Nova York, o tecido de Lu se tornou um símbolo de diálogo cultural entre o Oriente e o Ocidente. E enquanto os fios se cruzam nos antigos teares, a música do tempo continua — entrelaçando história, inovação e esperança.
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